terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Estilhaços

Vou despir os meus sentidos
e rasgar esta coisa que a raiva veste
e bate com a mesma pressa
que os comboios levam nas partidas

Hei-de sangra-lo
aperta-lo
faze-lo bater tanto
que há-de morrer de sufoco
revirando os olhos parados no infinito

De todos os estilhaços
recolarei as auriculas
e dos ventriculos aveludados
vestirei o olhar das crianças em dias de romaria.

MIA
8 Janº. 2013

O que é?

Que saudade é esta
que o peito veste de negro
ainda que o sol
aqueça a planície que o teu olhar trás?

Que dor é esta
que os negros olhos carregam
e o frio não corta
nem os ventos levam no triste entardecer?

Que tristeza é esta
que me veste e que me calça
e embrulha os meus sentidos?

E que viver é este
cheio de saudade
e dor
e frio
e ausência
que nem a Primavera há-de levar?

MIA
8 Janº.2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Em cada regresso...



Às vezes
regresso a casa
mas as flores já estão mortas
e os rios tão secos
que já não correm
jazem em caminhos
por onde ninguém passa

Deixam
sulcos vincados
como olheiras profundas
em cada regresso a casa
onde as flores já estão mortas
e os rios há muito
deixaram de correr

Mia
26 Dezº 2012

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Podia ser um conto de Natal

 Para a minha neta Matilde

...

Primeiro
foram os mares
e os peixes sufocados de riso
porque as sereias
se puxavam os cabelos
e queriam saber
o porquê
de terem engordado

Depois
os ovos das tartarugas
espalhados pela areia
à espreita do Sol
e dos dias
e das noites
e dos temporais
e do amor entre os homens

Depois
as princesa e os sapos
os duendes e os anões
e os homens já crescidos
sempre à procura de mais

Depois...

Depois, meu amor
foste tu
nascida de esperança
à espera do primeiro Natal

E depois
querida Matilde
foi o teu sorriso
e o brilho inocente do teu olhar
que as águas turvas dos rios
 nunca deixarei apagar

E depois
ainda depois
serão os dias
e as noites
e os anos
e a saudade...

Um beijo
MIA
17 Dezº 2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ontem

Ontem...

E o dia
tão triste
abraçou a noite
e partiu
como se fosse morte...

Hoje...

Regressou alegre
sem ser
ao terceiro dia
para partir de novo
à procura das estrelas.

MIA
7 Dezº 2012

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Amores de Outono

Ama-me
a alma
que o corpo jaz
de arrefecidos desejos

Ama-me
o olhar
perdido de vista
e de ilusão

Ama-me
em todas as palavras
e
gestos
e
lágrimas
e
suspiros
que não são ais

Continua a amar-me
muito além do nevoeiro
que as manhãs
frias de Outono vestem

MIA
22 Novº 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Idade

Carrego-te

Como se fosses
 tempo
ou
pele
ou
morada
onde a luz
simplesmente
fosse noite

Carrego-te

Até ao dia
em que o Sol
lentamente
ou cheio depressa
ficará para sempre
deitado
sem mais amanhã

Carrego-te
muito além do arco-íris

MIA
7 Novº. 2012










quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Tempestade

Sossegou a noite
mas mesmo assim
tive medo
que o Mundo acabasse
sem que o Sol
voltasse a nascer

Ficou a chuva
para lavar a mágoa
desta tristeza que nos veste
e diariamente
nos deixa mais pobres

Há muito
que dos olhos
partiu o cristalino...

MIA
24 Outº 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Não fosse o teu olhar

Meu amor
não fosse o teu olhar

e já não haveria searas
nem flores
nem canções

e só os rios
transbordariam de desilusão

Não fosse o teu olhar

e o rosto das crianças
vestiria de gelo
as manhãs por onde passam
descalças
em direcção ao futuro

Meu amor
não fosse o teu olhar

e este Outono
seria para sempre cadáver.

MIA
18 Outº.2012


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Setembro

...e os próximos versos
chegarão com as águas
os frios
e as manhãs
acordadas em correria

o sol
dormirá mais cedo
o pastel
vestirá os sentidos
a as árvores
baixarão os braços
em noites
onde o silêncio
deixará dormir
os meninos descansados

3 Setº 2012
MIA