sábado, 8 de novembro de 2008

O meu amo, tem um jeito...

Depois dos acontecimentos do dia anterior, começou a perceber que não era nada fácil gerir aquela situação. Até ali tinha sido tudo mais ou menos pacífico, mas agora não conseguia contrariar a vontade de o ver mesmo no hospital e de saber constantemente do seu estado de saúde.
Tinha de ser muito cautelosa para o segredo se manter, mas a imaginação era mais forte que ela e começou a criar vários cenários para a possibilidade de o visitar sem serem descobertos.
Telefonou à sua amiga enfermeira e combinou um encontro no hospital. Sem grandes pormenores, explicou que queria ver o acidentado do dia anterior e se ela podia ajudar. A amiga foi discreta nos porquês e ajudou. Arranjou-lhe uma farda de auxiliar e cuidadosamente levou-a até à enfermaria onde ele estava. Era o melhor disfarce, pois a encontrar alguém à cabeceira, não fariam grandes perguntas sobre a saúde do doente e assim não poderia comprometer-se.
Teve sorte na hora escolhida, pois estava tudo tranquilo e as visitas ainda não tinham começado a chegar. Era uma sala de acidentados e os pacientes estavam na maioria sedados por causa das dores e dormitavam. Ele também. Aproveitou aquele cenário e aproximou-se da cama. Primeiro hesitou para controlar a emoção, mas lentamente não resistiu a acariciar-lhe a mão onde um cateter lhe fazia entrar o soro...ao sentir o carinho ele abriu os olhos e a interrogação tornou-se espanto. Disfarçadamente ela inclinou-se e beijou-o na boca para ele não poder dizer nada nem quebrar a magia do momento. Foi tudo muito rápido. Arranjou-lhe a roupa para poder ainda tocá-lo, apertou-lhe a mão e rápidamente saíu não resistindo a olhar para trás...ele ainda mantinha o ar de espanto pela ousadia dela e isso divertiu-a.
Tinha sido o momento certo para sair, começava a chegar gente e era perigoso continuar ali.
Cruzou-se na porta com uma senhora e teve a certeza que era familiar dele mas não quis olhar nem para a cara ou mesmo cor de cabelo. Quis continuar sem saber de nada, mas mesmo assim ficou-lhe na retina a forma física e onde quer que voltassem a cruzar-se iria reconhece-la...isso incomodou-a mas afastou o pensamento. Tinha de deixar aquele cenário imediatamente.
Passou pelo gabinete da amiga e mais uma vez sem grandes explicações despiu a farda, agradeceu muito o favor e solidàriamente femininas abraçaram-se.
Respirou fundo e em passos rápidos abandonou o edíficio a caminho do carro. Só agora tomava consciência dos riscos e da ousadia vividas. Mas ela era mesmo assim, ousada e muitas vezes inconsciente em tudo o que fazia na sua vida.
Meteu-se no carro e à medida que conduzia o seu pensamento planava. Amava aquele homem
duma forma diferente e isso fazia-a correr todos os riscos possíveis e imaginários. Sentir o amor dele era também um bálsamo para o dia a dia e saber que tudo estava a correr bem tranquilizava-a.
Agora nada mais restava que continuar a esperar que tudo normalizasse e sobretudo que ele ficasse bem.
Até lá e como até aqui, tudo seria igual, só com uma diferença. Podem controlar-se os sentimentos, as emoções...mas não a vida.

MIA
8 Novº2008

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